sábado, 28 de setembro de 2013

Em memória do meu amigo Mamadú, pescador do Xitole ..


Em memória do meu amigo Mamadú, pescador do Xitole …
A expressão raças humanas (branca, negra, etc.) resulta de um conceito antropológico antigo e ultrapassado, cada vez mais em desuso, embora o racismo continue a ser uma infeliz e nociva realidade.
Creio que em vez dessa divisão por raças em função da cor da pele devemos considerar, tão só, uma única raça: a raça humana.
Claro que há pessoas com cores de pele branca, negra, amarela e, até, vermelha. Tal como há pessoas que, apesar da cor da pele ser branca, têm olhos azuis, enquanto outros os têm verdes, ou castanhos, ou cinzentos, ou pretos... E há outras que sendo designadas por terem pele branca afinal têm-na muita morena (escura mesmo) e, a par disso, cabelos muito escuros (mesmo pretos), enquanto também as há de pele nitidamente branca e com cabelos loiros.
Hitler foi um verdadeiro e demoníaco “mestre” nestas distinções.
E por isso tornou-se o primeiro responsável pelo genocídeo de milhares e milhares de seres humanos, para além das nefastas consequências de uma guerra mundial que prejudicou de forma irreparável a humanidade.
Hitler não quis ou não foi capaz de perceber que tal diversidade humana é um dom da natureza e uma mais valia da humanidade.
E por isso procurou destruir a obra humana, criada pela própria natureza, cuja diversidade os homens se encarregaram de ir enriquecendo ao longo de milhares e milhares de anos.
Ao contrário de Hitler saibamos, pois, aproveitar a riqueza dessa diversidade.
E para tal ultrapassemos preconceitos com mais informação válida e mais conhecimento, pois enquanto eles persistirem não seremos capazes de compreender as diversas realidades, costumes e culturas.
Eu tive a sorte de ter a oportunidade de poder começar a compreender as referidas diferenças a partir de 1971.
Com 22 anos fui para a Guiné (Xitole).
Branco, e crescido no meio de brancos, fui conviver com negros.
Católico fui para o meio de muçulmanos (de etnia Fula).
Tive lá um amigo especial - o pescador do Xitole que, na altura teria 40 e tal anos, mas que quando tinha apenas 15 anos foi levado de Dakar pelos franceses até Paris para, mesmo sendo menino, ser incorporado no exército francês e ser forçado a participar na última guerra mundial.
O pescador (que se a memória não me falha se chamava Mamadú), era um homem maduro, vivido e culto.
Quando estive destacado na Ponte dos Fulas, juntamente com o David Guimarães, o pescador acompanhou-nos e, com excepção dos fins de semana, em que ia para junto da família, permaneceu connosco cerca de um mês, para lançar as redes no Rio Pulom e capturar o peixe que nos saciou a fome.
Nas muitas conversas que tive com o Mamadú, um dia perguntei-lhe porque é que os homens do Xitole passavam os dias sentados na aldeia enquanto as mulheres se entregavam à vida dura da agricultura, inclusive com filhos às costas e outros a seu lado. E, soltando o que me ia na mente, perguntei-lhe porque é que tais homens não ajudavam as mulheres nos trabalhos agrícolas e, ainda de forma mais directa, se tal se deveria ao facto de esses homens não gostarem de trabalhar?
O meu amigo pescador captou-me o preconceito e com imensa calma, feita de muita sabedoria, o Mamadú perguntou-me se na minha terra (Porto) eu encerava o chão, lavava a louça, lavava a roupa à mão, estendia a roupa para secar, passava a roupa a ferro, etc., etc.
Estávamos em 1972 e, também por preconceitos, tudo isso era, inquestionavelmente, trabalho de mulher. De tal modo que qualquer homem que assumisse a realização dessas tarefas seria alvo de epítetos nada abonatórios nem desejáveis.
Naturalmente respondi-lhe que não, o que correspondia à verdade. Mas mesmo que assim não fosse ter-lhe-ia dito na mesma que não.
Com um sorriso amigo e de compreensão ele explicou-me que lá no Xitole as coisas também funcionavam de idêntico modo, pois trabalhar a terra era serviço exclusivo de mulher, pelo que se algum homem fosse ajudar a mulher a trabalhar a terra perderia a consideração e o respeito da aldeia.
E, completando a lição, o Mamadú explicou-me que os Fulas eram comerciantes por natureza, pelo que estavam sentados à espera que a guerra acabasse para, sem correrem perigos, poderem trilhar as matas, de aldeia em aldeia com a mercadoria às costas, para comercializarem os seus produtos e sustentarem a família.
Percebi, então, que esses amigos Fulas do Xitole não eram malandros.
A guerra é que o era. De tal forma que nem sequer os deixava trabalhar.
Aprendi, então, que não devia avaliar os outros à luz da minha cultura e dos meus valores e muito menos com a mente envenenada por preconceitos.
O meu amigo Mamadú, pescador do Xitole, ensinou-me isso e muitas coisas mais.
E com isso ajudou-me a crescer e a ser homem.
Há pouco tempo informaram-me que ele já teria falecido, o que muito lamento.
Evoco-o deste modo, cumprindo uma obrigação que tinha para com esse amigo, já que deixei passar a oportunidade de, olhos nos olhos, lhe agradecer o quanto me ensinou, com uma paciência, uma maturidade e uma humildade difíceis de igualar, a atestar que tive o ensejo de ter estado diante de um homem culto e bom de pele negra.
Obrigado Mamadú, velho pescador do Xitole.

E apesar de ser católico desejo que Alá te guarde.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Passeio “turístico” ao acampamento do PAIGC em Satecuta – Guiné/1971




Passeio “turístico” ao acampamento
do PAIGC em Satecuta – Guiné/1971
Sumário:
01. Na Guiné fui uma espécie de militar fantasma
02. Adiamento de 2 dias terá comprometido operação a Satecuta
03. O efeito surpresa e as vantagens naturais do PAIGC
04. O início da operação a Satecuta ocorreu num domingo
05. Os mistérios nocturnos e insondáveis da mata
06. A unidade faz a força
07. A chegada às imediações de Satecuta
08. A penosa progressão para Satecuta
09. A primeira emboscada à CART-2716
10. A eterna espera pela evacuação de dois feridos
11. A pior faceta da guerra de guerilha
12. A segunda emboscada à CART-2716
13. A ordem de retirada e os 3 feridos das tropas de Mansambo
14. A terceira emboscada à CART-2716
15. Só com o apoio do helicanhão conseguimos chegar ao Xitole
Notas:
1.      No que toca a datas e factos militares este relato baseou-se no registo da operação “Quadrilha Sagaz”, a Satecuta, que consta do livro do BART-2917.
2.      Como os “turistas” que fizeram parte desta “excursão” se esqueceram de levar consigo máquinas fotográficas ou de filmar, não disponho de imagens para ilustrar a generalidade dos acontecimentos aqui relatados. Como alternativa, recorri a algumas imagens que, nada tendo a ver com as situações descritas, poderão ajudar a animar o relato.
3.      Eventuais passagens sugeridas por terceiros serão assinaladas com (**) e o nome de quem as tenha proposto aparecerá sublinhado.
4.      Apelo à participação dos protagonistas desta operação para que contribuam para enriquecer este relato, através do email: jorgesilva2716@gmail.com



Passeio “turístico” ao acampamento
do PAIGC em Satecuta – Guiné/1971
01. Na Guiné fui uma espécie de militar fantasma
Em 01/05/1971, enquanto o barco misto Carvalho da Silva atracava em Bissau, comecei a ouvir a voz de um furriel que estava no cais a gritar pelo meu nome.
Quando pus os pés em terra esse camarada abraçou-me e segredou-me que já me esperava há mais de 2 meses em Bolama para poder, finalmente, regressar à sua terra.
Como 4º classificado na especialidade de atirador de artilharia tive o privilégio de levar comigo uma guia de marcha (devidamente autenticada) para me apresentar em Bolama, no C.I.M. (Centro de Instrução Militar), para o substituir nas suas funções de instrutor militar.
Seguimos juntos até ao Quartel General, para me apresentar. Aí chegados, um Capitão chamou pelo meu nome e anunciou que o meu destino seria Cufar, onde integraria o Pelotão de Caçadores Nativos 51. Naturalmente, exibi a guia de marcha que me destinava ao C.I.M. de Bolama e não a Cufar. Mas isso de nada serviu, pois, em linguagem de caserna, o homem limitou-se a dizer para eu utilizar a guia em vez de papel higiénico!


A realidade nua e crua da Guiné começava aí. E, juntamente com o camarada que ansiosamente me esperava, sofri uma enorme frustração.
Enquanto aguardava embarque para Cufar, saiu uma norma que impunha a experiência de pelo menos 6 meses de mato para alguém vir a integrar uma unidade de nativos, pelo que acabei por ser encaminhado para a CART-2716, sediada no Xitole.


Em meados de Junho de 1971 cheguei ao Xitole de avioneta, na companhia do Tenente Coronel Polidoro Monteiro, comandante do BART-2917, sediado em Bambadinca. O comandante (entretanto falecido) fez questão de a avioneta sobrevoar algumas tabancas que ele ia identificando pelos nomes, ao mesmo tempo que fazia questão de precisar que estavam sob o controlo do PAIGC.
Sem ainda ter pisado o mato, foi autêntico tratamento de choque, já que essa vizinhança indesejável estava demasiado próxima do quartel do Xitole. Afinal, a realidade nua e crua da Guiné também estava aí. Compreendi a força da mensagem, como um conselho sábio de que ali não poderia haver lugar para facilidades ou distracções!
Curiosamente, agora olho para a minha caderneta militar que teima em garantir que sempre estive em Bolama, no C.I.M, quando, na verdade, nunca lá cheguei a estar.
E, para complicar a situação, o livro de registos do BART-2917 nem sequer refere o meu nome, embora tenha estado no Xitole entre Junho/1971 e Fevereiro/1972, integrado na CART-2716.
Militarmente, fui uma espécie de fantasma!
Oficialmente, não estive onde deveria ter estado, de acordo com os registos do exército. E acabei por prestar serviço onde, pelos vistos, nunca deveria ter posto os pés.
Enfim, coisas da guerra, que também se ia fazendo ao sabor de alguns interesses...
Mas, mesmo assim, não lamento ter ido parar ao Xitole...


02. Adiamento de 2 dias terá comprometido operação a Satecuta
Em 08/07/1971 (5ª feira), pelas 9 horas da manhã, um grupo de combate da CCAÇ-12 saiu de Bambadinca, da sede do nosso Batalhão (BART-2917), rumo ao Xitole.
Para que a sua movimentação não levantasse suspeitas, a CCAÇ-12 evitou o caminho mais directo (a picada Bambadinca – Xitole) e seguiu por Galomaro.
De Galomaro rumou ao Xitole, onde só chegou pelas 16 horas, pois na Guiné, as viaturas militares demoravam tempos infinitos para percorrerem uns míseros 50 ou 60 quilómetros. 
A missão da CCAÇ-12 era assegurar a defesa do Xitole, enquanto os militares da CART-2716 estivessem fora do respectivo quartel, a participar na operação “Quadrilha Sagaz”, a Satecuta, no sector “L1” (posição “Xime 4E-1”).
O Xitole tinha cerca de 300 habitantes, com predominância da etnia Fula, de religião muçulmana, cor negra mais clara do que o usual e, tradicionalmente, era aliada das tropas portuguesas, disponibilizando-nos, inclusive, os guias locais de que necessitávamos para nos orientarmos em pleno mato.
Com apoios aéreos concedidos para 10/07/1971 (sábado), inicialmente a operação tinha sido prevista para esse mesmo dia.
E como as tropas envolvidas se começariam a movimentar na noite da véspera (09/07/1971 – 6ª feira), justificava-se a chegada da CCAÇ-12 ao Xitole na tarde do dia 08/07/1971.


Só que, já com a CCAÇ-12 em pleno movimento, os apoios aéreos inicialmente previstos foram cancelados em cima da hora e só voltaram a ser concedidos para daí a 2 dias, obrigando ao adiamento da operação para o dia 12/07/1971 (2ª feira).  
Esse adiamento inesperado poderá ter contribuído para que o PAIG se tivesse inteirado dos preparativos da operação, retirando a esta o indispensável efeito de surpresa e comprometendo, desde logo, o seu êxito.
03. O efeito surpresa e as vantagens naturais do PAIGC
Apesar dos escassos meios de comunicação da época, nas matas da Guiné as notícias desse tipo circulavam com indesejável celeridade.

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E, dadas as curtas distâncias que nos separavam de pontos controlados pelo PAIGC, 2 dias de adiamento seriam mais que suficientes para colocar os guerrilheiros em elevado estado de alerta, favorecendo-os com o poder do efeito surpresa que, de outra forma, poderia (e deveria) ter sido exclusivamente nosso. 

Naquele tipo de guerra, a surpresa era um factor a ter em devida conta e representava, pelo menos, meio caminho para o sucesso de qualquer operação.
Quem conseguisse surpreender o opositor, designadamente com emboscadas pré-concebidas, bem planeadas e organizadas, inclusive quanto aos pontos de retirada, tinha elevadas hipóteses de infligir sérios danos, tanto físicos como psicológicos e materiais.
E sempre que o factor surpresa estivesse a favor do PAICG isso só servia para fortaler ainda mais a sua posição privilegiada, pois reforçava a grande vantagem que ele já detinha quanto ao conhecimento pormenorizado do palco onde a guerra se desenrolava, apar das consequentes facilidades de orientação e de movimentação.


Nascidos e criados em constante contacto com as matas, os guerrilheiros deslocavam-se com óbvia destreza e mestria, enquanto nós o fazíamos com sérias e naturais dificuldades de adaptação, de aprendizagem e de execução, desde logo quanto às imprescindíveis competências de orientação no seio do mato que, em boa verdade, eram o calcanhar de aquiles das nossas tropas.
Pelo menos nesse particular era uma guerra desigual, com as vantagens a penderem claramente para os guerrilheiros do PAIGC, que conheciam como ninguém o terreno que habitualmente pisavam.
E na parte que me toca essa desigualdade era ainda mais acentuada, pois tinha chegado recentemente à Guiné, em rendição individual, e só estava no Xitole há cerca de um mês.
Mesmo assim, sentia-me algo confortado pela experiência de um ano e tal do pessoal da unidade em que tinha sido integrado e no qual aprendi a confiar, tanto mais que já tinham ultrapassado, com sucesso, algumas provas difíceis, sendo de destacar, sumariamente:
·          Flagelações sofridas na Ponte dos Fulas: em 22/06/1970, 04/07/1970 e 20/08/1970, todas com recurso a morteiro 82;
  • Emboscadas sofridas: em 25/06/1970, na posição “Xitole 9A-9”, tendo causado 3 feridos ao PAIGC; em 06/10/1970, na posição “Xitole 9C-9-92”)
  • Minas detectadas e levantadas: em 09/09/1970, na posição “Xime 7B1-63” (mina anti-pessoal reforçada com 7 Kg de trotil); em 03/01/1971, na posição “Xime 7A8-71” (mina anti-pessoal reforçada com granada de canhão sem recuo);

  • Operações desenvolvidas: 16/08/1970 – operação “Bacia Deserta”, a Seco Braima, tendo sido impossível finalizar a operação por a zona ser de bolanha e se encontrar cheia de água; 18/02/1971 – operação “Arruaça Dourada”, tendo a CART-2716 sido emboscada na posição “Xime 4F3-24”, na área de Satecuta, donde resultaram 2 guias nativos feridos (Ocha Camará e Samba Tene), tendo o PAIGC deixado rastos de sangue no terreno; 22/02/1971 - “Arruaça Dourada II”, a Satecuta, onde a CART-2716 entrou, tendo sido aí atacada pelo PAIGC que, no entanto, teve de abandonar o local, posto o que o aldeamento foi queimado; 28/03/1971 – “Corrida Entusiástica”, de novo a Satecuta, tendo a CART-2716 sofrido um ataque do PAIGC quando tinha um pelotão no interior de Satecuta, o qual foi repelido, seguindo-se a destruiçãp do que tinha sido reconstruído após a operação anterior.
04. O início da operação a Satecuta ocorreu num domingo
Apesar do referido e indesejável adiamento de 2 dias, e da eventual vantagem concedida ao PAIGC para reforçar, reorganizar e colocar os seus meios de combate, a operação “Quadrilha Sagaz” arrancou para Satecuta na noite de 11/07/1971 (domingo).
Estávamos no período das chuvas, que decorre entre Junho e Setembro e que dificultava ainda mais a movimentação das nossas tropas.
Pelas 22 horas desse domingo saímos do quartel, pois naquele contexto os dias da semana eram todos iguais e nenhum deles continha ou conferia privilégios especiais
Em tempo de guerra, quem pode manda e quem não manda limita-se a executar.
A coberto da noite, a CART-2716 arrancou do Xitole em direcção à Ponte dos Fulas, onde tínhamos um pelotão destacado em permanência, com a importante missão de guardar a área e a respectiva ponte (de madeira), que tinha uma importância crucial para a nossa logística e segurança.
Embora em teoria um pelotão devesse ter 25 homens, na CART-2716 (e seguramente noutras unidades operacionais), devido a várias contingências e imprevistos, quando se conseguia constituí-lo com 15 elementos já não era mau de todo. Por isso, os efectivos mobilizados pela CART-2716 terão rondado as três dezenas (todos milicianos), comandados pelo Capitão Milº. Espinha de Almeida.
Depois de arrancarmos do quartel do Xitole atravessámos a mítica Ponte dos Fulas, onde recebemos a solidariedade calorosa (e deveras motivadora) da “claque” constituída pelos camaradas aí destacados.


A partir daí o perigo aumentava potencialmente. E, com os olhos bem arregalados, a prescrustar a noite, seguimos até à área de Culobo, pela picada Xitole - Bambadinca.
Chegados a esse ponto saímos da picada e penetrámos nos mistérios insondáveis da mata.  

Deixámos de rumar a norte e passámos a caminhar no sentido oeste, na direcção de Galo Corubal, que fica a norte de Satecuta, a cerca de 3,5 Km de distância.
05. Os mistérios nocturnos e insondáveis da mata
Em plena noite a mata é um mundo obscuro e indecifrável, inclusive quanto aos sons estranhos aí produzidos, que teimam em multiplicar-se infinitamente.
Num primeiro momento esses sons assemelham-se a ruídos produzidos por aves e animais desconhecidos.
Mas, dadas as sucessivas repetições, a sugerirem, por vezes, um vai-vém entre supostos emissores e receptores, nas nossa mentes esses ruídos estranhos tendiam a equivaler a indecifráveis formas de comunicação humana que, inevitavelmente, reforçavam receios e medos, obrigando os nossos sentidos a manterem-se em permanente estado de alerta.
Daí resultava, inevitavelmente, um stress complexo, poderoso e, até, estranho, alimentado pela eminência (mesmo que psicológica) de elevados riscos individuais e comuns.
Difícil de traduzir por palavras, essa sensação estranha impunha um estado de alerta máximo e permanente.
Cada protagonista não conhecia o perigo que o podia surpreender em cada passada que dava, mas sabia, seguramente, que se alguma surpresa lhe estivesse reservada ela poderia atentar contra a sua própria vida e a dos seus camaradas.
Iluminados apenas pelos fugazes raios de luar que, aqui e ali, rasgavam a escuridão da mata, caminhávamos tensos, com os ouvidos bem sintonizados, como se fossem antenas, e os olhos a teimarem querer ver o que a escuridão não lhes permitia.


Íamos concentrados na gestão do espaço que nos separava uns dos outros, de forma a conseguirmos uma distância eficaz e razoavelmente segura, mas mantendo sempre as ligações, sem nunca perdermos de vista o camarada da frente e o da rectaguarda.
Quem esteve nessas circunstâncias sabe que há duas regras de ouro que ajudam a sobreviver: assegurar a ligação, simultaneamente, com o camarada da frente e o da rectaguarda e, ao mesmo tempo, manter distâncias seguras, embora adaptadas às condições do local e à visibilidade do mesmo.
De tal modo que numa bolanha (espaço aberto, análogo a uma planície), as distâncias aumentavam consideravelmente, mas no emaranhado da mata ou do capim tinahm de ser adequadamente reduzidas, para nenhum interveniente correr o risco de perder a ligação visual com os demais.
Em tais circunstâncias quem seguia na frente sentia a pressão psicológica inerente à primeira posição, mas quem ia na cauda sofria com a sensação de, subitamente, poder ficar desligado da coluna ou, até, de ser apanhado à mão, como era uso dizer-se.
06. A unidade faz a força
Era um contexto em que não reinava (nem podia reinar) o espírito do salve-se quem puder, que muitas vezes mina as organizações.
De contrário, automaticamente desenvolvia-se a partilha de uma solidariedade comum, que, de forma intuitiva, gerava conivências no seio do grupo, disciplina e coesão, ao ponto de se conseguir sobrepor às posições hierárquicas de cada um, embora sem as pôr em causa.
Cada homem tinha consciência de que era deveras importante e, porventura, decisivo, mas que sem o grupo se tornaria absolutamente insignificante e impotente.
Ao caminharmos na mata, rumo a Satecuta, as nossas passadas iam-se tornando cada vez mais incómodas, especialmente quando alguém pisava, inadvertidamente, algo mais estridente, como um simples ramo seco.
Apesar dos cuidados que colocávamos na marcha e no controlo dos respectivos ruídos, o som do nosso andamento marteláva-nos os tímpanos e reveláva-se como algo dissonante e amplificado no seio da noite, que violava os acordes e o ritmo da misteriosa sinfonia que emergia da mata e que teimou em acompanhar-nos até Satecuta.


Nesse ambiente, em que o stress era rei, assistíamos a uma autêntica metamorfose da organização social usual.
Quase por magia, a diferenciação piramidal de papéis cedia lugar a homens bem mais iguais, que, inclusive, se sentiam impelidos a abdicar do uso de galões e de divisas.
Sem necessitarmos da pressão que é habitual vir do topo, éramos capazes de partilhar, responsavelmente, tarefas, competências e objectivos, na mira de, a todo o custo, conseguirmos sobreviver enquanto individúos e como colectivo.
A tensão reinante conduzia-nos directamente ao domínio do espírito de equipa, em que as directrizes quase se tornavam desnecessárias, pois cada um de nós sabia o papel que lhe estava reservado e as funções que teria de desempenhar.
Neste particular, o rigor, a capacidade de entrega e de sacrifício, o espírito de equipa, a organização e a eficácia sobrepunham-se, sem dúvida, às componentes similares de qualquer organização civil.
07. A chegada às imediações de Satecuta
Depois de termos atravessado zonas de mata e de capim alto, pelas 4h 30m da manhã, chegámos às imediações de Satecuta (zona de Xime 4F6-37).
Adoptando as necessárias medidas de segurança, fizemos aí uma paragem para aguardar pelo nascer do sol e por apoio aéreo.
Com isso pretendíamos rumar ao objectivo com a luz do dia e em melhores condições de assistência, inclusive no caso de virmos a necessitar de evacuações de emergência.
Pelas 6h e 30m, uma patrulha de quatro elementos do PAIGC aproximou-se da nossa posição, embora por detrás da árvore onde me encontrava só dois guerrilheiros fossem visíveis.

A escassos cinquenta metros e sob a mira de dezenas de G3 e demais armamento, durante algum tempo os patrulheiros do PAIGC fizeram-nos crer que não nos tinham localizado.
Com um sangue frio impressionante, permaneceram no local como se estivessem a executar meras rotinas de patrulhamento.
De súbito, os guerrilheiros desapareceram na vegetação, na direcção NW, ao mesmo tempo que dispararam na nossa direcção rajadas de “costureirinha” e uma granada de “roket” que, no acampamento do PAICG, terão soado como o toque de sinos a rebate, a apelar à mobilização maciça e imediata de homens e de meios para neutalizarem os intentos dos indesejados invasores.


A decisão sensata do Capitão Milº Espinha de Almeida para que ninguém disparasse não tinha servido de nada, pois, pelos vistos, a nossa presença já estava há muito denunciada.
Salvo melhor opnião, tudo sugere que éramos esperados e que a recepção já estaria preparada e em andamento, o que poderá ter sido possibilitado pelas contigências no arranque da operação, que obrigaram ao seu adiamento por 2 dias.
Se na ocasião tivessemos connosco uma bolinha de cristal que nos ajudasse a antever o futuro, aqueles ousados guerrilheiros teriam ficado ali mesmo, com os corpos cravejados de balas, pois entre serem eles ou nós a dar o alerta, teríamos preferido que o som de alarme se assemelhasse ao das rajadas de G3 e ao ruído poderoso e temível da bazuca.
Mas, vistas as coisas com os olhos de hoje, ainda bem que assim foi, pois pouparam-se essas vidas que são bem mais preciosas do que os “troféus” que naquela altura e contexto pudessemos exibir.
E, tendo em conta o treino e a capacidade de autocontrole que esses guerrilheiros demonstraram, hoje penso que eles justificaram plenamente que a sua vida não tivesse terminado abruptamente naquele local ermo e pouco acolhedor.
Embora sem êxito, na tentativa de informarmos o sucedido e o rumo seguido pela patrulha atrás referida, tentámos comunicar por rádio com a CART-2714, que se encontrava estacionada na confluência dos rios Bissari e Samba Briel, depois de ter arrancado de Mansambo aquando da nossa partida do Xitole, para também tomar parte na operação.
08. A penosa progressão para Satecuta
Depois do contacto com a mencionada patrulha avançada do PAICG ficámos a saber o que seguramente nos esperava.
Porém, não havia outro remédio senão avançarmos rumo a Satecuta, que já estava ali próxima, na posição “Xime 4E-1”.


Pelo que se sabia, nessa altura Satecuta teria uma população de cerca de 300 habitantes e a segurança da área caberia a um grupo do PAIGC comandado por Mário Mendes, que, mais tarde, em finais de 1972, terá sido abatido pelo apontador de HK21 da CCAÇ-12 (fonte: António Duarte, em “blogueforanadaevaotres.blogspot.com”).
Pelas 7h 20m (50 minutos após termos sido detectados pelos guerilheiros), recebemos ordem para avançar e iniciámos a marcha.
Esse 50 minutos suplementares terão permitido que PAIGC ajustasse ainda melhor as suas posições, depois de poder determinar a linha da nossa marcha.
Entretanto, como o nosso principal guia nativo estava com sérias dificuldades de orientação, agravadas pela arborização uniforme, pelo capim alto e pela nebulosidade que afectava o local, foi necessário que o guia nativo auxiliar saísse de uma posição mais recuada para se juntar, na frente, ao guia principal.
Pretendeu-se com isso conjugar a experiência de ambos os guias, na expecativa de que eles pudessem definir o caminho certo para acedermos a Satecuta.
Como se vê, o nosso grau de dependência chegava ao cúmulo de necessitarmos de nativos que, apesar de o serem, em certas situações também sentiam dificuldades de orientação.
Como as dúvidas persistiam pouco conseguimos progredir, tanto mais que eram acrescidas de naturais cautelas, que, inevitavelmente, iam reforçando a lentidão da marcha.
09. A primeira emboscada à CART-2716
Como era expectável, pelas 8h 30m, sofremos uma primeira emboscada ao atingirmos a posição “Xime 4F3-37”, a qual terá contado com um grupo de 40 elementos do PAIGC. Curiosamente, esta emboscada ocoreu num local próximo da que se tinha verificado numa operação de 18/02/1971, na qual não participei (posição “Xime 4F3-24”).
Voltando a utilizar o poderoso morteiro 82, o RPG-2 (roket’s) e “costureirinhas” (metralhadoras ligeiras), os guerrilheiros evidenciaram o seu elevado potencial de fogo e obrigaram-nos a beijar o chão e a procurar a protecção possível, envolvendo, por certo, alguns episódios bizarros.
Os furriéis milicianos Guimarães (**) e Rei conseguiram a proeza de se abrigarem atrás de uma árvore tão pouco espessa que mal dava para um deles. Mas lá se arranjaram...
Pela minha parte fiquei deitado, a coberto de um pequeno tronco caído e, como da posição onde estava não tinha a percepção exacta do posicionamento do PAIGC, não dei um único tiro. Limitei-me a abrir bem os olhos e a utilizar os ouvidos como se fossem antenas, no intuito de poder captar algo mais elucidativo.
Com os primeiros tiros o PAIGC conseguiu a proeza de nos ferir (infelizmente) ambos os guias guinenenses, que, mais tarde, vieram a ser evacuados de helicóptero.
Além de pronta a nossa resposta foi eficaz, com especial recurso a morteiro 60, bazooka (lança granadas anti-viatura) e dilagramas (granadas defensivas disparadas com a G3).


No decorrer da emboscada, afigurou-se-me que vinham rajadas do cimo de uma árvore.
O Furriel Milº Rei, que adorava dilagramas, deve ter tido a mesma percepção, pois vi-o disparar um tiro certeiro para a copa da árvore suspeita, com o consequente rebentamento da granada a provocar uma nuvem de folhas.


A sensação de que daí provinham rajadas de “costureirinha” desapareceu de imediato, embora não saiba se, nessa exacta posição, alguém do PAIGC foi atingido.


Face á nossa reacção, os guerrilheiros do PAIGC iniciaram a retirada, bem protegidos pela perícia e pela excepcional pontaria de um competente atirador de morteiro 82 que, durante o tempo necessário à retirada, teimou em acertar na zona onde nos encontrávamos, embora sem lograr causar-nos mais vítimas.
Na retirada, os elementos do PAIGC terão levado consigo pelos menos 4 elementos feridos, confirmados visualmente por elementos das nossas tropas, bem como por rastos de sangue que deixaram no terreno, a salpicar o verde da vegetação.
A emboscada deve ter tido uma duração de cerca de 10 minutos, que, no entanto, se assemelharam a uma verdadeira eternidade, a comprovar que o que é mau parece nunca mais acabar, ao invés do que é bom, que parece findar demasiado depressa.
10. A eterna espera pela evacuação de dois feridos
Pelas 8h 40m o comandante da operação sobrevoou a área da emboscada numa avioneta DO-27 e solicitou a evacuação urgente dos dois guias feridos, mas esta só se veio a verificar pelas 10h 10m, a partir de uma clareira localizada na posição “Xime 4F3-38”.
Nesse ponto desceu um helicóptero, escoltado em terra pelas nossas tropas e no ar por um helicanhão, que nessa época ainda era capaz de intimidar os guerrilheiros, que, sem meios eficazes de reacção, se limitavam a ocultar-se na mata.


Mais tarde, a partir de meados de Abril de 1972, o poderio intimidatório do helicanhão viria a ser anulado pelo potencial bélico do PAIGC, reforçado, entretanto, pelos poderosos e temíveis mísseis terra-ar, que praticamente viriam a anular a nossa supremacia aérea.
Durante demasiado tempo estivemos imobilizados nesse local a aguardar a evacuação dos guias. Corremos os riscos inerentes a uma posição que era bem conhecida dos opositores e, por certo, todos sentimos a adrenalina e o stress a ultrapassarem os limites do razoável.
Com efeito, se na pacífica e actual vida corrente 10 minutos na fila da caixa de um banco parecem uma eternidade, imagine-se o significado psicológico de 1h 30m de espera nessas condições de perigo eminente e sem quaisquer alternativas viáveis!
11. A pior faceta da guerra de guerilha
Bem vistas as coisas, afigura-se-me que o pior lado da guerra de guerrilha não residia tanto nos tiros e nos rebentamentos, pois nessas situações o cérebro autoprotegia-se e desligava para deixar de contabilizar os perigos ou as memórias dos familiares distantes, passando a concentrar-se, sobretudo, na busca da resposta mais eficaz a tais situações.
Quanto a mim, a pior faceta da guerra de guerrilha tinha a ver, designadamente, com a incerteza constante, o desconhecimento do meio, as elevadas dificuldades de orientação e a sensação persistente de perigos ocultos, insondáveis e eminentes, que, cumulativamente, iam minando as emoções e produzindo consequente desgaste.
Esses ingredientes faziam balançar o efeito do factor surpresa para o PAIG, ao mesmo tempo que nos impunham uma pesada carga psicológica que, embora gerida na medida do possível, se assemelhava a uma espécie de ácido corrosivo que, mesmo que gradualmente, lá ia produzindo, se algum modo, os seus efeitos nefastos.
Embora já não recorde os nomes dos nossos guias feridos (ambos da população do Xitole), aproveito o ensejo para lhes prestar merecida homenagem, tanto mais que, voluntariamente, colaboraram com as nossas tropas, correndo connosco os riscos daí resultantes.
E a demonstrar a utilidade dos seus préstimos, a verdade é que com a sua evacuação ficámos sem rumo para retirar do local, logo que essa decisão viesse a ser tomada.
Apesar de se afigurar que a solução óbvia deveria ter ditado o abandono daquela posição e o início da retirada, o certo é que a ordem foi no sentido inverso.
Daí que tenhamos continuado a avançar para Satecuta, com a progressão a ser orientada pela avioneta onde seguia o comandante da operação.
12. A segunda emboscada à CART-2716
Pelas 10h 25m a avioneta que transportava o comandante da operação teve de seguir para Aldeia Formosa, para se reabastecer, pelo que fomos forçados a uma paragem, para, abrigados na mata, aguardarmos o regresso da avioneta para ela nos continuar a indicar o caminho do objectivo.
Sem dúvida, a avioneta era útil para nos apontar o caminho que, de outra forma, não conseguiríamos descortinar pelos nossos próprios meios.
Mas, a par disso, a avioneta também tinha o grande inconveniente de sobrevoar a nossa posição para nos poder assinalar o percurso a seguir. E, como era inevitável, as forças do PAIGC iam-se apercebendo da rota que estávamos a trilhar.
Não admira, pois, que pelas 11h 30m, tívessemos sido atacados pela segunda vez, desta feita na posição “Xime 4F2-39”.
Esse novo confronto teve características muito idênticas às do primeiro, sendo de supor que tenha sido levado a cabo pelo mesmo grupo de 40 elementos.
Com efeito, voltou-se a verificar o mesmo poderio e precisão de fogo do morteiro 82, especialmente quando este foi chamado a cobrir a retirada das forças do PAIG, depois da nossa resposta pronta e, pelos vistos, intimidatória.
De acordo com o relato dos ocupantes da avioneta que sobrevoava a área, teremos conseguido voltar a atingir a zona ocupada pelos atacantes com fogo de morteiro 60, de bazooka e de dilagramas, sendo de admitir que isso lhes tenha causado novas baixas.
13. A ordem de retirada e os 3 feridos das tropas de Mansambo
A cerca de 3 Km de Satecuta, com a nossa progressão a decorrer lenta e em mata cerrada, recomeçou a chover e, simultaneamente, as condições de visibilidade agravaram-se, dificultando a missão da avioneta.
Pelas 12h 20m, o comandante da operação decidiu, finalmente, dar ordem a ansiada de retirada ás forças envolvidas na operação.
Noutro local relativamente próximo, nas imediações da posição “Xime 4E7-48”, pelas 12h 40m as forças da CART-2714 (Mansambo) detectaram um elemento do PAIGC que se erguera a coberto de um tronco de árvore e, de imediato, abriram fogo sobre essa área.


A resposta do PAIGC não se fez esperar e o som do morteiro 82, dos “roket’s” e das rajadas de “costureirinhas” animaram o ambiente circundante durante cerca de 5 minutos.
Face à reacção das tropas de Mansambo, o grupo do PAIGC, estimado em cerca de 20 elementos, foi forçado a retirar, deixando no local restos de sangue e indícios de corpos que, na fuga, terão sido arrastados pelo chão.
Por seu turno, as tropas da CART-2714 (Mansambo) tiveram a pouca sorte de sofrer três feridos ligeiros devido a estilhaços: Joaquim da Silva Pereira (Alferes Milº), Manuel Ribeiro (soldado) e Iabo Baldé (guia nativo).
Depois de se libertar desse incidente, a CART-2714 logrou alcançar a picada Xitole – Mansambo pelas 15h 15m, entrando nesta, pelo lado sul, a cerca de 2 Km da Ponte do Rio Bissari, tendo continuado a trilhar essa via para chegar ao quartel.
14. A terceira emboscada à CART-2716
Entretanto, na CART-2716 continuávamos a sentir a tarefa da retirada deveras complicada, pois, sem guias, as dificuldades para encontrar o caminho de regresso eram incontornáveis.
Sem conhecermos o rumo certo, tivemos a sensação de que tínhamos caminhado em círculos, sem conseguirmos progredir a caminho do quartel.
De tal modo que, segundo os ocupantes da avioneta, pelas 13h 00m tínhamos atingido a posição “Xime 4G3-22” e passadas cerca de 2h e 15m ocupávamos a posição “Xime 4D7-49”, onde viemos a sofrer terceira emboscada!
Pelas 15h 15m, fomos emboscados de forma análoga às anteriores, inclusive no que respeita à competência do atirador do PAIGC que era uma espécie de vedeta “DJ” a animar a festa com os rebentamentos demolidores do morteiro 82.
Na ocasião tínhamos feito uma ligeira paragem, provocada pela necessidade de se determinar o caminho correcto para o regresso, pois tínhamos a estranha e inquietante sensação de termos perdido o rumo do Xitole que, de resto, se veio a confirmar plenamente.


Ainda de pé, aproveitei o ensejo para retirar do bolso uma conserva, pois a fome apertava, e de que maneira! Com a lata de conserva na mão, intuitivamente decidi aninhar-me atrás de um baga-baga (espécie de fortificação construída por formigas) para aí poder devorar o petisco disponível em relativa segurança.
Mas de imediato começou o fogo de artifício e a apetecida amostra de refeição perdeu-se no chão, sem sequer ter tido tempo para lhe tirar a prova...
Para lá de mais um susto e do aumento das tensões até aí avolumadas, felizmente essa terceira emboscada não nos infligiu baixas ou danos, e, uma vez mais, mereceu da nossa parte a resposta pronta que se impunha.
Debaixo de fogo os ponteiros do relógio pareciam parar enquanto, inversamente, a adrenalina acelerava e subia, o que continuava a provocar a sensação amarga de que cada ataque durava uma eternidade!
15. Só com o apoio do helicanhão conseguimos chegar ao Xitole
Depois dessa terceira emboscada ficámos ainda mais desnorteados quanto ao rumo a seguir.
Na circunstância valeu-nos a preciosa ajuda de um helicanhão que foi expressamente enviado ao local para nos assinalar a direccção correcta do regresso, que, como supunhamos, era bem diferente da que até aí tínhamos vindo a trilhar!
Para quem nasceu e cresceu no meio de vilas e cidades, com nomes de ruas e avenidas para se orientar, os pontos de referência no mato são extraordinariamente difíceis de distinguir.
No meio do arvoredo ou do capim, com as tensões ao rubro, ao citadino tudo parece igual!
Mas, com o helicanhão a indicar-nos o caminho até cerca das 17h 30m, finalmente lá conseguimos voltar à Ponte dos Fulas, por onde tínhamos necessariamente de passar para daí regressarmos, sãos e salvos, ao quartel.
Ao fim da tarde, quae ao pôr do Sol, lá conseguimos chegar incólumes ao Xitole, onde o balão das tensões acumuladas se esvaziou num ápice com a ajuda de umas “bazucas” (cervejas de meio litro) e a recepção solidária e calorosa de que fomos alvo, e que só quem esteve em idênticas circunstâncias tem condições para saber apreciar e valorizar devidamente.

Jorge Silva
ex-Furiel Miliciano
CART-2716 do BART-2917 - Guiné: 1971/73 

sábado, 4 de setembro de 2010

Memórias das vésperas do dia mais feliz da CART 2716



Memórias das vésperas do dia mais feliz da CART 2716
A CART 2716, enquanto unidade do BART 2917 (Bambadinca), teve a seu cargo a defesa da zona do Xitole, no leste da Guiné, entre 1970 e 1972.
A CART 2716 era uma companhia quase exclusivamete formada por jovens milicianos (na casa dos 20 a 23 anos), incluindo o Capitão Espinha de Almeida (comandante) que, de entre eles, era o mais velho, apesar de apenas contabilizar três décadas de vida.
Apenas havia dois elementos do quadro permanente - os sargentos Santos e Pires que, apesar de mais maduros, eram, mesmo assim, homens relativamente jovens, na casa dos quarenta e tal anos.
Como tantos outros da época, no ex-ultramar português os jovens da CART 2716 foram impedidos de viver com normalidade uma fase crucial do seu amadurecimento.
No leste da Guiné, longe de tudo que lembrasse um resquício de civilização, foram prematuramente forçados

  • a trocar as convidativas praias estivais pelos perigos do capim e das matas;
                                                             
  • a trocar os passeios com as namoradas pelos patrulhamentos e operações na companhia de camaradas de armas;
                                                             
  • a trocar o conforto dos lares por toscos abrigos cavados no solo e cobertos de troncos, terra e cascalho, que também serviam de abrigo a cobras e outros répteis;
                                                             
  • a trocar a apetecível comida portuguesa por refeições improvisadas à base de arroz, de conservas de cabala e de rações de combate, onde a sobremesa tendia teimosamente a ser goiabada e uma simples refeição com batatas era um luxo festejado;
                                                             
  • a trocar a promissora (embora amordaçada) rádio portuguesa pelas emissões intencionalmente intimidatórias da rádio PAIGC, enquanto instrumento da vertente psicológica da guerrilha;
                                                             
  • a trocar a música melódica e harmoniosa das “boites e bares dos anos 70 pelas batidas ruidosas dos morteiros e dos canhões sem recuo, misturadas com solos estridentes das famigeradas e temidas costureirinhas (pistolas metralhadoras);
                                                             
  • a trocar a pacata família de origem por uma família de armas adoptiva, onde umas caixas de transporte de bacalhau se transformavam, milagrosamente num guarda-fatos, uma lata de coca-cola passava, de repente, a chamar-se copo ou chávena e os objectos que evocavam uma infância ainda bastante próxima tinham sido macabramente substituídos por metralhadoras G3, morteiros, bazucas e granadas;

  • a trocar os melhores anos e sonhos das suas vidas por um poço sem fundo de incertezas, de incomodidades e de perigos, que alguns nem sequer tiveram o ensejo de evocar no feliz dia do regresso, simplesmente porque a guerra colonial se encarregou de lhes amputar esse elementar direito.

      Como tantos outros da época, no ex-ultramar português os jovens da CART 2716 foram impelidos a amadurecer num contexto que, felizmente, nos dias de hoje os seus filhos e netos têm imensas (e compreensíveis) dificuldades em captar e compreender, inclusive nos seus mais simples contornos.
      Uma simples rotina da época ajudará, por certo, a ilustrar melhor o que as palavras e as fotografias não conseguem documentar. 
      Era usual os militares improvisarem uma folha com números inscritos desde 730 até 0, onde cada número ia sendo assinalado (abatido) sempre que passava mais um dia da sua comissão de serviço. 
      Neste particular, como em tantos outros, os objectivos individuais e colectivos coincidiam com o sonho do glorioso dia zero, o que ajudava a cimentar as relações de camaradagem (e amizade) existentes.
      Em 25 de Março de 1971, quando eu ainda apenas assinalava no meu mapa o 401º dia a generalidade dos elementos da CART 2716 marcava, de forma inexorável, merecida e seguramente festiva, o ambicionado dia zero, deixando para trás trilhos que não tinham sido livremente escolhidos para readquirir o direito de passar a procurar os trilhos de reintegração na vida.
      As imagens que se seguem ilustram a cerimónia militar (desfile) que decorreu em Bissau, no quartel dos Adidos, antes de a generalidade dos elementos da CART 2716 (e do BART 2917) embarcarem, rumo às terras onde nasceram e aos braços saudosos dos familiares e amigos que emocionadamente os esperavam. 
      As fotos que figuram adiante são, por isso, uma espécie de hino a um punhado de homens (muito jovens na sua maioria) que se viram privados do direito de amadurecer como é comum os jovens amadurecerem em tempos de paz. 
      Pela minha parte, sinto a obrigação de, através das fotografias seguintes, lhes prestar esta singela homenagem, inclusive em memória do acolhimento, apoio e camaradagem que deles sempre recebi nos longos meses que partilhámos no Xitole.

      ©  Jorge Silva – ex-Furriel Miliciano
      Bissau, Março/72: despedida da CART 2716 (Xitole- Guiné), do BART 2917

      ©  Jorge Silva – ex-Furriel Miliciano
      Bissau, Março/72: despedida da CART 2716 (Xitole- Guiné), do BART 2917
      General António de Spínola

      ©  Jorge Silva – ex-Furriel Miliciano
      Bissau, Março/72: despedida da CART 2716 (Xitole- Guiné), do BART 2917

      Bissau, Março/72: despedida da CART 2716 (Xitole), do BART 2917
      ©  Jorge Silva – Furriel Miliciano – Guiné 1971/73 (CART 2716 – Xitole  e  BENG 447 - Bissau)

      ©  Jorge Silva – ex-Furriel Miliciano
      Bissau, Março/72: despedida da CART 2716 (Xitole- Guiné), do BART 2917

      ©  Jorge Silva – ex-Furriel Miliciano
      Bissau, Março/72: despedida da CART 2716 (Xitole- Guiné), do BART 2917

      ©  Jorge Silva – ex-Furriel Miliciano
      Bissau, Março/72: despedida da CART 2716 (Xitole- Guiné), do BART 2917

      Tal como em 25 de Março de 1972, embora agora sem lágrimas a humedecerem-me os olhos, envio um grande abraço a todos os "velhos" camaradas e amigos que a incompreensão e a teimosia de um punhado de homens com ideias já então fora de moda obrigou a que nos reuníssemos e convívessemos em terras da Guiné, designadamente no Xitole.
      Jorge Silva
      ex-Furriel Miliciano da CART 2716 - Xitole
      Email: jorgesilva2716@gmail.com