Xitole - Ponte dos Fulas:
Apareceu posto de sentinela em cima do fortim...
Para quem prestou serviço militar no Xitole (povoação do leste da Guiné, a cerca de 150 Km de Bissau e localizada junto a uma curva acentuada do Rio Corubal), a Ponte dos Fulas tinha um significado muito especial (quase mítico), servindo, inclusive, como "repouso do guerreiro", já que quem lá estava usualmente ficava liberto de patrulhamentos e operações.
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Xitole-Bissau através do "Maps.Google" - cerca de 150 Km se não se utilizarem transportes fluviais. |
Para os militares do Xitole, a Ponte dos Fulas era, em si mesma, um elemento contraditório.
Por um lado, obrigava os militares aquartelados no Xitole a deslocações e riscos diários, inclusive para abastecerem o destacamento da ponte com pão e água dita potável (entenda-se, para cozinhar).
Mas, em contrapartida, a Ponte dos Fulas era um ponto estratégico que assegurava (e defendia) a ligação por estrada (de terra batida) da Companhia do Xitole à sede do Batalhão, sediado em Bambadinca, a cerca de 40 Km, que (pasme-se!) poderiam demorar para cima de 6 ou 7 horas a percorrer com viaturas!
Por um lado, obrigava os militares aquartelados no Xitole a deslocações e riscos diários, inclusive para abastecerem o destacamento da ponte com pão e água dita potável (entenda-se, para cozinhar).
Mas, em contrapartida, a Ponte dos Fulas era um ponto estratégico que assegurava (e defendia) a ligação por estrada (de terra batida) da Companhia do Xitole à sede do Batalhão, sediado em Bambadinca, a cerca de 40 Km, que (pasme-se!) poderiam demorar para cima de 6 ou 7 horas a percorrer com viaturas!
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© Jorge Silva – Furriel Miliciano – Guiné 1971/73 (CART 2716 – Xitole e BENG 447 - Bissau) Aspecto da estrada Bambadinca-Xitole, antes de atravessar a Ponte dos Fulas, visível ao fundo. |
A Ponte dos Fulas, sobre o Rio Pulom (afluente do Corubal), era essencial para permitir que os reabastecimentos, designadamente de alimentos, chegassem ao aquartelamento do Xitole. De outra forma, a ligação mais viável à "civilização" era por via aérea.
Mas percorrer a estrada Bambadinca–Xitole nunca foi tarefa fácil, dado o risco eminente (e por vezes concretizado) de minas e emboscadas ao longo do percurso, o que exigia, da parte dos militares portugueses, acções de vigilãncia especial e concertada ao longo de pontos do trajecto considerados estratégicos, mobilizando designadamente forças das Companhias do Xime, Mansambo e Xitole, todas pertencentes ao Batalhão sediado em Bambadinca.
Guardar a ponte e garantir a sua funcionalidade e disponibilidade era, pois, um imperativo que contribuía, designadamente, para a sobrevivência dos militares do Xitole.
Para o efeito, em regime de alternância e pelo período de um mês, havia permanentemente um pelotão numa área relativamente extensa junto à ponte, devidamente delimitada por arame farpado e, dentro do possível minada, para dificultar a eventual (e temida) aproximação (e, no limite: a infiltração) de elementos afectos ao PAIGC, que, segundo informações recolhidas, "gostavam bastante" de rondar áreas dos "latifúndios" do Xitole.
Duas seccções ficavam alojadas em abrigos improvisados localizados junto da entrada do destacamento (e da sua tosca cozinha), com acesso pelo lado do quartel do Xitole.
A outra secção permanecia a cerca de 500 metros dos referidos abrigos, num fortim de dois pisos localizado junto do tabuleiro da ponte, tendo por vizinhos mais próximos os crocodilos que teimavam em banhar-se nas águas do Rio Pulom.
Quando chegaram ao Xitole, tanto a CART 2716 como as companhias que a antecederam (CART 2413 e precedentes) tiveram o ensejo de constatar que o fortim da Ponte dos Fulas não tinha em cima da respectiva placa de cobertura qualquer posto de sentinela, pelo que, até então, o sentinela teria de permaner em cima da ponte ou no interior da parte superior do fortim, onde, usualmente, também dormia o responsável pela secção.
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Foto extraída do blogue de "Luís Graça" a evidenciar que inicialmente a cobertura do fortim não tinha posto de sentinela. |
A foto seguinte ilustra a recepção feita (com pompa e circunstância) pela CART 2716 à CART 3492 na Ponte dos Fulas, quando esta atravessou a Ponte dos Fulas pela primeira vez, ouvindo, como era da praxe, um coro ruidoso de "piu-piu", alusivo ao seu estatuto de "periquitos" (designação dada a quem desembarcava pela primeira vez na Guiné).
Como se vê na foto, o posto de sentinela já existia sobre cobertura do 2º piso do fortim.
E, embora a fotografia não o documente, o acesso ao mesmo era assegurado por uma escada tosca de troncos de madeira, cujos degraus tinham suspensas latas com badalos para produzirem ruído sempre que alguém utilizasse a escada.
E, embora a fotografia não o documente, o acesso ao mesmo era assegurado por uma escada tosca de troncos de madeira, cujos degraus tinham suspensas latas com badalos para produzirem ruído sempre que alguém utilizasse a escada.
A composição fotográfica que se segue documenta o que atrás se disse sobre o citado posto de sentinela, que só passou a existir na vigência da CART 2716.
O que explicará esta alteração e porque terá sido tomada a iniciativa de a implementar?
Depois de transitar do 1º para o 3º Pelotão, por este só contar com um furriel (o David Guimarães) e, na circunstância, nem sequer dispor de alferes, em Janeiro de 1972 (salvo erro) coube-nos guardar o destacamento da Ponte dos Fulas.
O furriel miliciano Guimarães ficou alojado junto à entrada do destacamento (via Xitole) e eu (furriel miliciano Silva) fiquei no fortim, onde, como era prática comum, passei a pernoitar no 2º piso, já que no patamar térreo dormiam os restantes elementos da secção.
Como era prática de então, no período nocturno o interior do 2º piso do fortim também servia para a sentinela desempenhar a sua função.
Além de se tratar de um ponto relativamente elevado, tinha umas aberturas (tipo ‘seteiras’) que permitiam ao sentinela observar uma vasta área circundante, designadamente a bolanha frontal e o arvoredo que, a escassas centenas de metros, se impunha como verdadeiro e preocupante enigma para os militares portugueses.
Além de se tratar de um ponto relativamente elevado, tinha umas aberturas (tipo ‘seteiras’) que permitiam ao sentinela observar uma vasta área circundante, designadamente a bolanha frontal e o arvoredo que, a escassas centenas de metros, se impunha como verdadeiro e preocupante enigma para os militares portugueses.
Numa das primeiras noites (não sei precisar em qual delas) adormeci enquanto o sentinela andava à volta da minha cama, de ‘seteira em seteira’, a desempenhar a sua valiosa e imprescindível função de vigilância.
As vidas dos que dormiam (e a dele próprio) dependiam do rigor e da eficácia com que desempenhasse a sua tarefa de vigilância.
As vidas dos que dormiam (e a dele próprio) dependiam do rigor e da eficácia com que desempenhasse a sua tarefa de vigilância.
Confiante, adormeci tranquilo, embalado pelo ruído suave e compassado das solas das suas botas que, na circunstância, até serviam de fundo musical, a convidar a um sono repousante e tranquilo. E no piso inferior, seguramente os restantes elementos também dormiam confiadamente.
A meio da noite (também não consigo precisar a hora) acordei sobresaltado e dei conta de que o referido fundo musical tinha cessado. O sono extraordinariamente pesado que eu tinha antes de chegar à Guiné tinha-se transfigurado por completo e, quase por magia, tinha passado a ser extraordinariamente leve.
Intrigado, olhei ao redor, num ambiente escuro, fugazmente rasgado por alguns reflexos da lua, e vi um vulto incompreensivelmente imobilizado, colado a uma ‘seteira’, sem dar quaisquer sinais de se querer movimentar.
Levantei-me cuidadosamente para não produzir qualquer ruído e, incrédulo, constatei que o homem tinha mesmo adormecido, depois de, comodamente, ter encostado a espingarda G3 á parede.
Aproximei-me muito lentamente e, apesar disso, o homem permaneceu imóvel.
Peguei na G3 e depois falei-lhe suavemente, para não criar alvoroço.
A sua reacção foi a que se advinha: acordou, mostrou-se receoso e esgotou-se em mil desculpas para atenuar o grave erro cometido.
A sua reacção foi a que se advinha: acordou, mostrou-se receoso e esgotou-se em mil desculpas para atenuar o grave erro cometido.
Lembro-me de lhe ter recomendado que fosse acabar o sono tranquilamente para a cama, sem se preocupar com os turnos de sentinela seguintes.
E, na circunstância, incapaz de tornar a pegar no sono, optei por fazer de sentinela até ao nascer do dia.
E, na circunstância, incapaz de tornar a pegar no sono, optei por fazer de sentinela até ao nascer do dia.
Nessa mesma manhã quebraram-se completamente as rotinas da Ponte dos Fulas.
A habitual calma matinal deu lugar a um autêntico reboliço pois foi lançado um objectivo até então imprevisto: construir imediatamente um posto de sentinela em cima da cobertura do fortim e a respectiva escada (tosca) de acesso.
De início houve algumas resistências, o que é natural sempre que algo muda. Uma das preocupações era a referida escada, por se situar mesmo nas costas do sentinela.
A solução para minimizar o problema consistiu em improvisar uns chocalhos, constituídos por latas (salvo erro de coca-cola) com uma espécie de badalo, que passaram a ornamentar a escada para produzirem ruído sempre que alguém a utilizasse.
Enquanto permanecemos na Ponte dos Fulas o local do sentinela passou a ser aquele.
E com isso os riscos de o sentinela adormecer diminuíram significativamente, pois o arvoredo que se avistava a poucas centenas de metros, depois da bolanha, encarregava-se de inspirar um indescritível respeito e convidava o mais despreocupado ou negligente a manter-se permanentemente em estado de alerta.
E com isso os riscos de o sentinela adormecer diminuíram significativamente, pois o arvoredo que se avistava a poucas centenas de metros, depois da bolanha, encarregava-se de inspirar um indescritível respeito e convidava o mais despreocupado ou negligente a manter-se permanentemente em estado de alerta.
Depois disso não sei se a utilização do referido posto improvisado de sentinela continuou a ser a mesma, pois quem passou a deter esse conhecimento foram os elementos da CART 3492, que ficaram incumbidos de garantir a segurança daquela área.
Apenas sei (conforme ilustrado pelas fotos seguintes do David Guimarães, ex-Furriel Miliciano da CART 2716) que, em 2001, a velha Ponte dos Fulas estava no seguinte estado lastimável:
O tempo avança rápido e a idade não perdoa. Mesmo no que se refere a pontes e fortins os 30 anos entretanto decorridos até 2001 deixam marcas inexoráveis... Pena é que ainda não tenham sido suficientes para que haja uma Guiné melhor, mais próspera, democrática e justa. E, nesse âmbito, um Xitole com mais oportunidades e uma vida bem melhor para os que lá residem - gente cordial e sociável, de etnias essencialmente fula e futa-fula.
Apenas sei (conforme ilustrado pelas fotos seguintes do David Guimarães, ex-Furriel Miliciano da CART 2716) que, em 2001, a velha Ponte dos Fulas estava no seguinte estado lastimável:
O tempo avança rápido e a idade não perdoa. Mesmo no que se refere a pontes e fortins os 30 anos entretanto decorridos até 2001 deixam marcas inexoráveis... Pena é que ainda não tenham sido suficientes para que haja uma Guiné melhor, mais próspera, democrática e justa. E, nesse âmbito, um Xitole com mais oportunidades e uma vida bem melhor para os que lá residem - gente cordial e sociável, de etnias essencialmente fula e futa-fula.
Jorge Silva
ex-Furriel Miliciano da CART 2716 - Xitole
Email: jorgesilva2716@gmail.com
Email: jorgesilva2716@gmail.com